CONTOS
A Transitoriedade da vida e a solidariedade humana
Certa feita, em uma longínqua data, à noite, em um cemitério
abandonado, encontraram Milarepa, o grande yogue tibetano, deitado há
alguns dias sobre um cadáver putrefato. Assustados seus discípulos
perguntam porque fazia aquilo, ao que respondeu o grande sábio “
quando estou esquecendo de minha passageira vida, venho ao cemitério
para revigorar minha consciência da transitoriedade da vida e das
coisas”.
A civilização humana preocupada com a sua sobrevivência
e seu “ desenvolvimento” tem, no correr dos séculos, esquecido sua
transitória existência. O homem vem fazendo grandes planos
como se fosse ele eterno. Adquire bens como se fossem eternos. Desenvolveu
sua ganância a ponto de tomar bens de outros a qualquer custo. Chegou
ao cúmulo de construir grandes pirâmides para perpetuar sua
existência. Andou e anda pelos caminhos equivocados da vida.
O ser humano vem se esquecendo que tudo que existe, inclusive a própria
Terra, tem seu círculo de vida; seu começo meio e fim, incluindo
aí a vida humana, e por isso está ansioso para obter bens
que julga permanentes e sonha ainda com a eternidade.
Com
esse entendimento e essa forma de viver, o homem está desviando
sua energia e atenção da realidade concreta da vida. Está
ele “ sonhando” e “ flutuando” sobre esta realidade e isso prejudica a
adoção de ações conscientes e objetivas aqui
e agora.
Evidentemente, que não precisamos chegar ao ponto de agir como o
Grande Mila, mas podemos observar seu exemplo e ficarmos alerta no sentido
de nunca perdemos a consciência da transitoriedade e impermanência
da vida e das coisas. Só assim, viveremos intensamente nossas vidas
e deixaremos de lado a ganância por bens materiais passageiros, o
que nos levará a um mais alto nível da consciência
mundial de solidariedade, pois entenderemos que todos somos iguais.
São Paulo, março de 1996.
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Texto: Antonio Silveira R. dos Santos
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